A Observação de Bebês numa Situação Padronizada
20 outubro, 2009
Winnicott, psicanalista inglês, ocupa importante espaço na moderna compreensão brasileira de ser humano. Um de seus livros, que é, na verdade, uma coleção e seleção de textos dele, é o “Da pediatria à psicanálise”. Este traz, de maneira bem organizada, o pensamento do referido autor ao longo de sua formação enquanto psicanalista. O que apresento aqui é um apanhado de cinco textos de dentro deste livro que contém bases para o entendimento da obra de Winnicott. De maneira muitíssimo concisa e rápida.
Pois bem. No referido texto de 1941, A observação de bebês numa situação padronizada, Winnicott apresenta a maneira que construiu seu famoso Jogo da Espátula e as conseqüências terapêuticas dele. O jogo consiste em observar o bebê em uma situação com poucas variáveis para que a ansiedade e seus desvios possam ser observados. Eis o jogo.
A sala do Winnicott é grande, de forma que ele já pode observar a mãe desde a entrada pela porta do consultório até a sua mesa. Durante este tempo, ele se lembra do histórico do caso. Quando a mãe e seu bebê chegam até ele, ele pede para que a mãe se sente de frente para ele com o ângulo da mesa colocado entre eles. Ela, mãe, permanece com o bebê em seu colo. É, então, colocado um depressor de língua retangular e reluzente, a tal espátula, no canto da mesa. Pede-se para que a mãe coloque o bebê em uma posição que seja possível alcançar a espátula com a mão. Ambos, terapeuta e a mãe, deverão contribuir o menos possível para o desenrolar da situação e isto deve ser explicado para a mãe. E é desta maneira que se torna fácil atribuir à criança os eventos ocorridos. Vale citar que a observação depende, ainda, de a criança ter entre cinco e treze meses de idade (aproximadamente). Menos que cinco meses, impõe-se a imaturidade orgânica para a realização de tal tarefa. E mais que treze, as possibilidades de interesse por outros objetos do bebê aumentam tanto que não é pertinente inferir algo sobre o interesse pela espátula.
Sobre o jogo, Winnicott o descreve em três estágios. No primeiro, o bebê avança sua mão para a espátula, mas descobre que a situação exige ser reconsiderada. Ele fica em um dilema. Ou ele colocará sua mão sobre a espátula e olhará para o terapeuta ou retirará completamente a mão e enterrará a cara na blusa de sua mãe. Gradual e espontaneamente, o interesse ressurgirá. No segundo, chamado de “período de hesitação”, o bebê não se move mas também não fica rígido. Aos poucos, ele se torna corajoso o suficiente para que seus sentimentos aflorem e a situação mude. Sua boca passa a salivar e, com isto, Winnicott infere que ocorreu a aceitação de seu desejo pela espátula. A partir disto, o bebê pega a espátula e a põe na boca. E o terceiro, em que o bebê deixa a espátula cair como que por acaso. Se a espátula lhe é devolvida, a criança a joga a espátula pouco mais propositalmente até que consiga, depois de um tempo, livrar-se dela de forma agressiva e com certo contentamento. Este final será, mais tarde, comparado ao Jogo do Carretel, do Freud.
De posse desta técnica, Winnicott cita que seria possível utilizá-la de maneira terapêutica. Descreve, assim, um caso de uma menina que, aos doze meses de idade, sofria de convulsões que se tornaram freqüentes. Ao colocá-la frente à situação padrão, ela tentou morder o dedo de Winnicott, furtivamente. Em outras vezes, ela mordeu o dedo fortemente até quase arrancar a pele. Depois brincou com a espátula no chão por quinze minutos. Detalhe: chorando. Em certa vez, ela mordeu o dedo de Winnicott com força, no entanto sem demonstrar sentimentos de culpa. Na seqüencia voltou a brincar de morder e jogar espátula no chão. Passou a mostrar, também, algum prazer em brincar. Dias depois, a mãe relatou sua melhora.
Por não ser o tema principal do autor do texto, ele diz pouco sobre a possibilidade terapêutica da situação padrão. Parte para a discussão dos desvios de normalidade durante o uso da técnica. Diz ele que qualquer variação ao comportamento normal, descrito acima junto aos estágios, são significativos. A variação mais comum incide sobre a hesitação inicial, que pode ser ausente ou exagerada.
Outro caso, desta vez o de Margaret, que tem ataques de asma durante os atendimentos, é discutido. Em descrição brevíssima, é o caso de uma menina que aos sete meses de idade desenvolve ataques de asma. É levada para tratamento e Winnicott a observa na situação padrão. E, no presente caso, ele demonstra como a criança claramente teve um ataque de asma em duas ocasiões durante o período de hesitação inicial para pegar a espátula. Somente depois que pôde ter confiança em pegar a espátula é que a crise passou. E depois destes ataques durante a situação padrão e a confiança obtida no jogo, não mais voltou a tê-los.
A discussão da teoria é marcada por forte influência kleiniana. Não pretendo descrever esta parte, uma vez que o meu texto ficaria deveras e desnecessariamente extenso. Assim, separei, muito brevemente, o que considero mais importante nesta parte. É aqui que Winnicott faz uma bela interpretação a respeito da respiração, tendo em vista o caso de asma apresentado anteriormente, ligando a respiração à noção que o bebê tem de dentro e fora da mãe. É também nesta parte que Winnicott cita uma passagem de Freud que diz que o perigo externo deve ser internalizado para tornar-se significativo para o ego. Mais cedo, em Notas sobre normalidade e ansiedade, Winnicott apresentou idéia semelhante ao construir uma de suas teses que, no caso, é a de que um evento traumático só toma conseqüências negativas quando corresponde a uma punição já fantasiada pela criança.
Ainda dentro das discussões teóricas, aparece um conceito winnicottiano importante para sua concepção de clínica. O de Experiência total. Esta é uma noção com implicações teóricas e técnicas, porquanto é a possibilidade de uma experiência ocorrer em toda a sua extensão. Quer dizer que experiências como amamentação, sono ou defecação podem ter sido vividas de maneira incompleta e o terapeuta dá, artificialmente, ao bebê o direito de completar tais experiências. Em comparação com a psicanálise de adultos seria isto o mesmo que a marcação do ritmo da terapia pelo paciente.
Por fim, o autor traz uma comparação de sua técnica da espátula e o Jogo do Carretel de Freud. Muitos anos se passaram até que ele pudesse reparar com franqueza as semelhanças entre estes jogos. Sorte nossa, pois ele pôde bem descrever como a queda da espátula, durante o terceiro estágio, não causava o choro do bebê. Isto porque a criança alcança, em função de ambos os jogos (espátula e carretel), um reasseguramento quanto ao destino de sua mão interna e quanto a sua atitude.